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Em uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, se é que insetos tem sonhos, ainda mais inquietantes, o besouro deu por si embaixo de uma árvore transformado em um pequenino homem. O besouro abriu os olhos e viu-se homem. Se fosse uma larva, até seria normal, sairia do casulo e seria uma borboleta, quem se importaria? Mas não, em seu caso não. Dormiu besouro e acordou homem.
Estava deitado sobre folhas e raízes, que incomodavam sua pele, que percebeu-se ser espessa. O besouro acostumado com seu dorso duro, arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual dificilmente mantinha a posição, não estava nem um pouco confortável em sua nova forma. Agora tinha pele, e não gostava nada disso.
Tentava imaginar como essa transformação aconteceu, mas não conseguia, não poderia compreender como suas milhares de perninhas finas e moles tinham se transformado em apenas duas grandes, grosas e firmes pernas, e ao tacá-las com aquilo que percebeu ser membros superiores, braços, coisas que nunca teve, sentia uma sensação estranha de delicadeza, no toque sutil da pele, e firmeza, na constituição do corpo. Realmente era um homem, e não sabia como o ser.
Os outros insetos ao redor, olhavam-no com um olhar que era um misto de repulsa e medo, que ele não conseguia aceitar, mas podia compreender.
Seu instinto, ainda animal, o direcionava ao desespero. A fome, que sentia, mas de uma forma nunca antes experimentada, era algo que lhe incomodava de uma forma sobrenatural, mal sabia ele que era humanamente normal.
Como poderia ser assim, era o que indagava. Mas na verdade, nunca havia indagado nada antes, aquela vontade incontrolável de saber o porque das coisas, o raciocínio rápido, e a lógica experimentada pelo antigo besouro/inseto/animal e agora homem/pensante/racional, era algo tão estranho que parecia ser normal. O que faz do ser humano homem não é a capacidade de pensar?
Mal sabia os reles besouros, larvas, minhocas, e todo tipo de animal rastejante, que se pudesse, desejaria ser humano, para pisar e esmagar tudo de nojento que visse, que o que faz desses seres grandes e dominantes serem quem são ou o que são, é o infeliz fato de terem dúvidas.
E aquele novo ser, que não sabia o que ser, pensava na verdade ser a evolução de uma nova espécie. Surgiu-lhe a idéia de que na verdade aquela mudança era uma dádiva. Apesar de não ter passado, poderia ele ter um futuro. O fato de não ter família ou amarras fazia dele alguém único. Não tinha a quem puxar, nem o que herdar porém não tinha também de quem cuidar, nem com quem se preocupar. Era livre, como ninguém de sua espécie, tanto da nova como da antiga, poderia um dia ser.
Talvez dominar o mundo, essa idéia lhe passou pela cabeça. Como tantas outras que passaram ao longo daquele curto espaço de tempo.
Pensou tanto, que na verdade nem viu o tempo passar. Comia e dormia, e no intervalo dessas, defecava e pensava. Não necessariamente nesta ordem. Sem necessariamente ordem alguma.
E envolto em tantos planos e pensamento, entre tantas idéias e perguntas, "Ser ou não ser?" ou "O que estou fazendo de minha vida?", aquele não percebeu-se envelhecendo. Quando tempo levou não importa, talvez tenham sido semanas, alguns insetos vivem apenas por dias. Ou talvez viveu anos, como os homens, que diferença faria? Na verdade aquele ex inseto, que tanto procurava saber, como se tornou homem, e o quê que com isso ia fazer, deixou-se pegar pelo que nos seres humanos, é algo perigoso de ter. Ele viveu de ilusão, pensando no poderia ser, pensou tanto o ex besouro, que morreu sem nada saber.
* Inspirado na obra Metamorfose de Kafka
Izis Bispo

criado por izis.bispo
16:44:54