À procura...

...da sabedoria, da felicidade, do amor e de várias coisas que eu perdi...e de outras coisas que ainda não encontrei.

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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2008

21.10.08

Metamorfose ...e de repente ele era um homem

 

 



Em uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, se é que insetos tem sonhos, ainda mais inquietantes, o besouro deu por si embaixo de uma árvore transformado em um pequenino homem. O besouro abriu os olhos e viu-se homem. Se fosse uma larva, até seria normal, sairia do casulo e seria uma borboleta, quem se importaria? Mas não, em seu caso não. Dormiu besouro e acordou homem.
Estava deitado sobre folhas e raízes, que incomodavam sua pele, que percebeu-se ser espessa. O besouro acostumado com seu dorso duro, arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual dificilmente mantinha a posição, não estava nem um pouco confortável em sua nova forma. Agora tinha pele, e não gostava nada disso.
Tentava imaginar como essa transformação aconteceu, mas não conseguia, não poderia compreender como suas milhares de perninhas finas e moles tinham se transformado em apenas duas grandes, grosas e firmes pernas, e ao tacá-las com aquilo que percebeu ser membros superiores, braços, coisas que nunca teve, sentia uma sensação estranha de delicadeza, no toque sutil da pele, e firmeza, na constituição do corpo. Realmente era um homem, e não sabia como o ser.
Os outros insetos ao redor, olhavam-no com um olhar que era um misto de repulsa e medo, que ele não conseguia aceitar, mas podia compreender.
Seu instinto, ainda animal, o direcionava ao desespero. A fome, que sentia, mas de uma forma nunca antes experimentada, era algo que lhe incomodava de uma forma sobrenatural, mal sabia ele que era humanamente normal.
Como poderia ser assim, era o que indagava. Mas na verdade, nunca havia indagado nada antes, aquela vontade incontrolável de saber o porque das coisas, o raciocínio rápido, e a lógica experimentada pelo antigo besouro/inseto/animal e agora homem/pensante/racional, era algo tão estranho que parecia ser normal. O que faz do ser humano homem não é a capacidade de pensar?
Mal sabia os reles besouros, larvas, minhocas, e todo tipo de animal rastejante, que se pudesse, desejaria ser humano, para pisar e esmagar tudo de nojento que visse, que o que faz desses seres grandes e dominantes serem quem são ou o que são, é o infeliz fato de terem dúvidas.
E aquele novo ser, que não sabia o que ser, pensava na verdade ser a evolução de uma nova espécie. Surgiu-lhe a idéia de que na verdade aquela mudança era uma dádiva. Apesar de não ter passado, poderia ele ter um futuro. O fato de não ter família ou amarras fazia dele alguém único. Não tinha a quem puxar, nem o que herdar porém não tinha também de quem cuidar, nem com quem se preocupar. Era livre, como ninguém de sua espécie, tanto da nova como da antiga, poderia um dia ser.
Talvez dominar o mundo, essa idéia lhe passou pela cabeça. Como tantas outras que passaram ao longo daquele curto espaço de tempo.
Pensou tanto, que na verdade nem viu o tempo passar. Comia e dormia, e no intervalo dessas, defecava e pensava. Não necessariamente nesta ordem. Sem necessariamente ordem alguma.
E envolto em tantos planos e pensamento, entre tantas idéias e perguntas, "Ser ou não ser?" ou "O que estou fazendo de minha vida?", aquele não percebeu-se envelhecendo. Quando tempo levou não importa, talvez tenham sido semanas, alguns insetos vivem apenas por dias. Ou talvez viveu anos, como os homens, que diferença faria? Na verdade aquele ex inseto, que tanto procurava saber, como se tornou homem, e o quê que com isso ia fazer, deixou-se pegar pelo que nos seres humanos, é algo perigoso de ter. Ele viveu de ilusão, pensando no poderia ser, pensou tanto o ex besouro, que morreu sem nada saber.

 * Inspirado na obra Metamorfose de Kafka


Izis Bispo

16.10.08

Sonho Dia e Noite

categorias: Poemas

 

 

Eu sonho todo dia de noite
Então não seria toda noite?
Mas depois da meia noite é outro dia!
E eu durmo esse horário toda noite
E nos meus sonhos nunca é noite
É sempre dia, de noite
E todas as noites dos meus dias
Sonho que são dias minhas noites
E a hora mais esperada do dia?
È quando chega a noite!
É quando durmo e não vejo chegar o dia
E sonho com outros dias, nas minhas noites

 

Izis Bispo 

12.10.08

Isto é apenas água

categorias: Pensamentos

“Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:
– Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
– Água? Que diabo é isso?
Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida.” DAVID FOSTER WALLACE

A vida, em sua grande parte, não é composta de momentos incrivelmente felizes, ou horrivelmente tristes. A maior parte de nosso tempo é uma grande compilação de momentos banais, de coisas fúteis, de sensações furtivas. Nosso dia a dia é feito de água.

E o que nos sobra? Aprender a nadar seria um começo...

Izis Bispo


03.10.08

Inocência

categorias: Poemas

 

Não se trata de inveja, 
É menos egoísta do que cobiçar algo do outro
Nem falo de desdém
Pois valoriza até demais o que outro tem
Não falo de desejo
Que dá vontade e passa que nem vejo
Não pense que é paixão
Esta não tem a minima noção
Mesmo tentando explicar é difícil de entender
É muito mais que tudo isso
Quero ser Você!


Izis Bispo